100 crônicas e férias

Cem crônicas. Nem acredito que publiquei tanto desde maio do ano passado. Foi uma necessidade e um prazer imenso.

Só comecei a escrever quando percebi que nunca seria escritor. Foi durante minha viagem pela América do Sul, visitando nossos maravilhosos vizinhos. Livre desse objetivo, restaram-me as palavras e certeza de que, se treinasse muito, se escrevesse feito um louco, talvez ficasse feliz em sentir esse sabor, o sabor de expressar o que corpo e cabeça sentiram. Era isso que buscava: uma felicidade intensa e temporária.

Muita coisa não foi publicada, muitos testes esquecidos ou deletados, dois livros iniciados. Escrever urgia. Soa ingênuo e é verdadeiro: ainda me espanta essa mágica das palavras surgirem na tela obedecendo o balé dos dedos no teclado. É precioso. Foi preciso também treinar os sentidos. O talento que me falta, tento compensar escutando com respeito o que as coisas e as pessoas sussurram.

Depois dessa aventura centenária, é hora de férias nos quatro blogs: A vida é um prato sem receita, Só mais uma foto de turista, Na Fumaça da Notícia e Projeções. Tempo de estudar, ler mais alguns clássicos e novos autores. Estudar e treinar mais, treinar muito. Reunir e avaliar as crônicas, testar novos formatos, escrever um livro quem sabe. E ocasionalmente postar novos textos.

Como criei uma fan page há pouco tempo, semanalmente postarei crônicas antigas.

Um abraço

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Bandeja Paisa e o Bogotazo

bandeja paisa

 

– Que te provoca?

Foi assim que o garçom perguntou o que eu gostaria de comer.  Creio que foi a maneira mais interessante que ouvi. “Já escolheu?” ou “o que vai pedir?” transformaram-se em frases protocolares, apáticas e sem sabor. Se um dia ouvir “E aí, que vai ser?”, é justo levantar e ir-me. “Que te provoca?” pareceu um convite ao desejo gastronômico, que trafegou do inconsciente do estômago até a memória do paladar. Os olhos vidrados no cardápio encantaram-se pela imagem da Bandeja Paisa. Pedi. “Ótimo pedido. E para tomar, uma cerveja?”, assenti e o senhor sorriu e partiu, e no seu sorriso já havia uma educada licença.

Acabara de chegar a Bogotá, capital da Colômbia. Era noite. Faltavam duas semanas para voltar ao Brasil e passar o Natal com a família. Tinha um bom dinheiro guardado e resolvi ser folgado. Fui para um hotel. Um hotelzinho velho e barato no bairro de Candelária, dizem que Fidel Castro se hospedou ali no final dos anos 50, antes da revolução. Dessa vez, nada de hostel com 8 pessoas no mesmo quarto e a possibilidade que conhecer um monte de gente. Queria uma cama, uma mesa e uma cadeira, ficar sozinho com o computador e as rememorações da viagem. Consegui, e como ficaria duas semanas, por um bom preço. Tudo certo, corri até o restaurante que o porteiro me indicou.

O prato chegou rápido, mal secara o primeiro copo de cerveja. Parecia que desembarcava em Minas Gerais: arroz, feijão, ovo frito, carne moída, linguiça, torresmo, meio abacate, banana frita e uma arepa – popular pão colombiano. Em alguns lugares troca-se a carne moída por um bom bife. Farto, muito farto, mais indicado para almoço do que jantar, mas isso não me preocupava. Os garfos agiram vorazmente. A Bandeja é típica do estado de Antioquia, cuja capital é Medellín, uma das mais importantes cidades do país. Dizem que foi aceito como prato nacional a partir da década de 50, mas em 2005 foi oficialmente reconhecido.

Comi rápido demais. Não suei porque estava na serra e notava-se a presença do frio em novembro. Ouvi a porta de ferro do restaurante descer e anunciar que fechavam. Prontamente o garçom se aproximou e despachou qualquer pressa, puxando papo, perguntando de onde eu era, quanto tempo ficaria… Era um senhor redondo, olhos redondos, o rosto circular com bochechas indomáveis, o corpo redondo na mesma medida; o sorriso fácil, o olhar atento. Não estranhei quando ele pediu uma cerveja e disse aos outros que fecharia o caixa em alguns minutos. Era o dono, desde 1991.

De repente o papo caiu em história e política. Envergonhei-me ao dizer-lhe que pouco conhecia: Uribe, Farc, o país mais próximo politicamente dos EUA na América do Sul, Santos o atual presidente. “E o Bogotazo?”. Só ouvira falar, sei que o país ficou de ponta cabeça, mas não sabia o porque. Seus olhos brilharam:

– Eu era criança mas me lembro vivamente, meu pai era muito politizado e apoiava Gaitán, Jose Elécer Gaitán. 1948, 9 de abril de 1948. Essa é a data de seu assassinato. Gaitán era candidato a presidente e provavelmente venceria, tinha grande apoio popular o Partido Liberal. O relógio marcava 13 horas, ele ganhava a rua ao sair de seu escritório, para encontrar-se com um jovem estudante cubano chamado Fidel Castro, quando recebeu três tiros, dois na cabeça e um no peito. Um policial conseguiu prender um suspeito, Juan Roa Serra. Ele tentou protegê-lo da população refugiando-se em uma drogaria, mas a massa enfurecida o agarrou e o assassinou, seu corpo deixado na Praça Bolívar, em frente ao Palácio Presidencial. Com isso, ninguém sabe até hoje o que aconteceu. Foi Roa o assassino? Quem foi o mandante? A primeira pergunta ganhou outra: Roa tinha problemas mentais e comprou uma arma dois dias antes do crime, mas não sabia atirar. Como acertou dois tiros na cabeça e outro no  peito, como um exímio atirador? A segunda pergunta ficou sem resposta.

– Foi então que aconteceu a violência generalizada…

– Exatamente. Eu só lembro que fiquei trancado em casa por dias. Tentaram invadir a Casa Nariño,  a sede e residência do Presidente da República, houve saques em vários pontos da cidade, queimaram escritórios do governo até as armas do quartel da polícia foram roubadas. Todos culpavam os conservadores, que detinham o poder na época. Casas, universidades, o Palácio de Justiça, muitos lugares foram incendiados e o Exército tentava conter a população à bala. Muitos, muitos mortos no centro e na periferia de Bogotá. A cidade foi devastada pela luta entre liberais e conservadores. Esse período de distúrbios durou quase uma década, dizem que matou mais de 200 mil pessoas, chamamos de La Violencia.

Fiz mais algumas perguntas, inclusive quis saber seu nome. José. Nessa noite nos despedimos e ele me convidou para voltar no dia seguinte, para me contar a invasão do Palácio de Justiça, feita pelos Movimento 19 de Abril, o M-19, em novembro de 1985. Voltei e voltei algumas outras vezes nas duas semanas que fiquei em Bogotá. Deu sua opinião e contou vários episódios políticos de seu país. Nunca falou de sua vida, manteve-se um professor vivaz e atencioso, mas sua intimidade distante, guardada pela História. Nem seu sobrenome soube. Antes de partir, lhe agradeci: “Gracias por todo, maestro Jose”.

Carapulcra com sopa seca

carapulcra

 

“Festejo? Vocês tem que ir à casa dos Pastroiani”, sentenciou o motorista da van que me levava da cidade de Ica para o distrito de El Carmen, sul do Peru. Tento conhecer um pouco da cultura afro-latina em todos os países sul-americanos que visitei e El Carmen seria o epicentro da música e dança negra do país de Vargas Llosa.

Os negros que chegaram a Lima no século XVII vindos de Angola, Congo e Moçambique tocavam o festejo originalmente com tambores, depois foi introduzida a cajita, a quijada de burro (maxilares de burro, um instrumento que mistura reco-reco com matraca) e o cajón, seu instrumento icônico – que é peruano e o fantástico violonista Paco de Lucia o levou para o flamenco. Hoje já se toca com baixo, bateria, violino e Eva Ayllón é a cantora mais popular do gênero.

Perguntei ao motorista sobre os campos de algodão que margeavam a estrada. Ele disse que depois de séculos trabalhando como escravos, o governo cedeu esses campos para que as famílias africanas pudessem começar suas vidas. “Não, na verdade eles lutaram e tomaram as terras do senhores”, corrigiu-se. “Não tenho certeza, só sei que agora as famílias exploram os indígenas que descem dos Andes para trabalhar na colheita”.

Os outros passageiros insistiram e o motorista mudou o caminho pra me deixar o mais próximo da casa da família. Chegando lá, uma decepção: “Estão todos em Lima para um show, mas pode entrar”, avisou Jenifer Pastroiani e seus 20 anos. Mal começamos a conversar, um jovem da sua idade entrou. Falaram-se rapidamente e ele se foi. Assim que ele passou a porta, uma voz de matrona soou, chamando Jenifer. Ela pediu licença e sumiu na casa, deixando-me na sala ampla, repleta de instrumentos musicais, vários cajóns e fotos na parede, onde gostei de notar a presença de brancos, negros e indígenas. Parecia que o ideal da miscigenação chegara ao sul do Peru.

Voltou nitidamente contrariada. Fiz algumas perguntas sobre a família e o festejo e ela se esforçava para responder com atenção, mas seus pensamentos a traíam. Perguntei onde poderia almoçar e ela indicou um restaurante duas quadras dali. Aproveitei e convidei-a. Ela sorriu e aceitou.

O lugar era simples com gente simpática: promessa de boa comida. No cardápio encontrei o prato que atiçava minha curiosidade desde que cheguei à região: carapulcra com sopa seca. Expliquei que no Brasil o nome soaria estranho. Carapulcra é pouco convidativo e sopa seca é surrealista ou, tentando esticar o entendimento, é um caldo com pouca água, “a sopa está seca”. Não expliquei bem e ela não entendeu direito. Pedimos o prato e uma cerveja pra desafiar o sol forte das 13 horas. Foi seu momento para desabafar.

Ela achava um absurdo. Uma de suas avós brigava com ela porque ela namorava um negro. Sua família sempre foi miscigenada, tem parentes brancos e indígenas, o sobrenome italiano provava. Porém, exista uma tensão racial na família. Sutil, mas existia. Um exemplo seria sua geração só se casar ou namorar com brancos ou mestiços. Nenhuma de suas irmãs, irmãos, primas ou primos namoravam negros, só ela. E o que acontece? A avó cozinha críticas. Pra ela havia racismo dentro da família sim.  Contou-me o seguinte diálogo: uma neta pediu café. Uma avó deu. A neta disse:

– Só não conte pra minha mãe, tá vovó?

– Por quê?

– Porque ela disse que seu eu tomar café eu vou ficar negra.

– Ela disse isso?

– Disse.

– E você não quer ficar negra?

-Não sei, eu só quero café.

“Ao menos meus pais não se importam com isso. Eles dizem pra tentar entender minha avó. Ela é de outro tempo, quando o preconceito pesava mais que hoje, quando ser racista era costume aceitável. Bisnetos com pele mais clara sofrerão menos, é isso que passa na cabeça dela. Até compreendo sua dor, mas é um absurdo ela se intrometer na minha vida”. Parou quando chegou a comida.

A carapulcra é um cozido de lombo de porco, um tipo de batata chamado papa-seca, ají especial (não descobri o especial) e amendoim. A sopa seca é um talharim com molho à base de manjericão, caldo de frango, alho cebola, cominho e pimenta. Na carapulcra, refoga-se cebola e alho, depois acrescenta-se o ají especial, que garante a cor marrom do prato; lombo, papa-seca em pequenos pedaços e amendoim: pode alongar os talheres. É servida com um pedaço de mandioca cozida. Na sopa seca, usa-se a mesma base de alho, cebola e ají, depois chega o manjericão. O macarrão é cozido diretamente no molho, não em água separada. Pode ser acompanhada  por um pedaço de frango. É uma ótima combinação. Dizem que é um prato inca e o amendoim foi incorporado com a chegada dos africanos. O macarrão é influência dos italianos que chegaram no século XIX, quase um pesto sem canoli. O prato resume a história do sul do Peru.

Enquanto comíamos ela me perguntou bastante sobre o Brasil, sobre o samba e a história dos escravos no país. Trocamos similaridades. Pratos limpos, ficamos em silêncio, até que ela olhou a porta e ficou séria. Era o namorado com cara de poucos amigos. Ela o convidou para sentar, ele recusou. Ela foi até a porta e disse poucas e discretas palavras, o suficiente para ele tomar uma cerveja conosco. Tentei puxar papo. Ele resistiu no começo, mas o cara era boa gente. Logo o ciúme baixou e conversamos normalmente. Ao despedirmos ele disse: “em dois dias vou tocar em Ica. Você está convidado”.